OS TRÊS ATOS DE CELESTINO
Dia vinte e três acordo cedo; Tomo café.
Pego a enxada e vou pra roça trabalhar;
Garantir o que comer.
O sol está bem forte;
Bate na lomba, na testa;
Não desanimo não apesar:
De a seca castigar.
Já no fim da tarde;
Fodido, cansado e sedento;
Mais uma vez passo no bar;
Pra brindar ao meu amor.
Chegando ao barraco;
Sussurros suspeitos me assolam;
Vejo as roupas de rosinha no chão; e Tião no meu colchão.
Doeu no peito.
Parou meu coração.
Posso até ser tudo;
Mas corno, eu não aceito não.
Facão em minha mão;
Foi tudo sem pensar;
Mandei para o céu a Rosinha;
E para o inferno o Tião.
Faz horas o desespero sopra, com o vento de outrora;
E o sol já não demora, de novo no sertão nascer.
Você que me julga talvez possa pensar;
Que cabra mau sem alma;
Não tem direito nem de viver.
Mas digo de verdade que entre mim e você;
Não há muita diferença;
A não ser o grande fardo que é viver.
Agora lavo meus pecados;
Nasci todo torto e errado;
Vejo parado a rural;
vou simbora pra capital.
Olhei para o céu e conversei com Deus.
Fez de mim lascado;
Não deu certo você sabe.
Ele me respondeu:
“ Te dei liberdade pra ter coragem; de ser humano de verdade”
Já faz tempo, dias e meses que estou na estrada;
Muitas cidades ensolaradas, de monte, planície e mar.
Para esquecer o triste passado;
Só posso viajar, me juntei aos campesinos e lutei com os sem-terra.
Agora depois de velho só quero sossego;
Depois de anos na estrada, conheci o Brasil inteiro.
Agora digo: meu sonho é encontrar;
Um cantinho tranquilo e simples; onde eu possa recomeçar.
E de repente eu desço do busão;
Te encontro na rodô comendo um pastel de feira;
Andei na contramão.
Cansei de viajar, mas dessa vez;
Arrumei um ponto bom.
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