sexta-feira, 27 de abril de 2012


SONHO LÚCIDO


É tão bom quando se sonha “Terezamente”;
Mesmo quando o sonho é ruim;
Faz bater forte o coração forte de Tereza.

Faz apertar os pequenos olhos fundos;
Faz segurar forte o meu braço;
Deixando marcas dos seus pequenos dedos.

Às vezes surgem até brigadeiros e vasos de flor.
Às vezes não surgem nada`s, nem panelas ou toalhas; 
Apenas o branco do lençol e uma vontade de voar pela janela.

Tereza sabe voar!
Bagunçando a cama;
Falando baixinho com a boca de um peixinho.

E eu que sonhei com a imensidão do Mar Egeu;
Por ter lido um capitulo da bíblia;
Influenciado por uma moça linda e querida;
Que se transformasse numa bruxa maldita.

Sonhei também com titãs e um moço de cartola – era semideus.
Queria mais ter sonhado com Godá e suas imagens falidas.
Com algum poeta louco e fingidor, 
Escondendo seus poemas clichês no cobertor.

Hoje foi melhor, sonhei com um filme preto e branco; 
Tereza era melindrosa e eu um jovem vagabundo.

Na verdade...sonhei com Tereza
Um codinome para a face sem nome de uma moça que vives por ai.
Tereza será o nome de minha filha, caso eu venha existir.
Mais certamente já é simbologia, talvez provavelmente antecipado por Maria.

quarta-feira, 25 de abril de 2012


MEU EU AMANHÃ

(Impacto)

A força telecinética joga meu corpo longe,
Metros e mais alguns centímetros distante, 
Perto da carcaça sem vida da minha janta.

(Ouve-se um clarão)
Vê-se ao longe o estrondo significante de bombas teleguiadas.

Volto-me já pálido a poça d´água; Lavo o rosto.
Escreverei minha última poesia em tom pós-apocalíptico.

Com o sangue do meu inimigo,
Sem esperança de algum ideal,
Como o último dia de primavera - jovens corriam no parque.

Sem baques: não há mais arvores; nem jovens.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

POEMA BÊBADO

Escrevo poemas, porque sinto falta do mundo;
Sinto falta de tudo, de algo, do teu lado obtuso.

Sinto muito por sentir tanto.

De tanto sentir, me perco no infinito dos sentimentos incompletos.
Sinto tanto quanto - você;
Era o que eu queria sentir de verdade.

sexta-feira, 20 de abril de 2012


OS TRÊS ATOS DE CELESTINO

Dia vinte e três acordo cedo; Tomo café.
Pego a enxada e vou pra roça trabalhar;
Garantir o que comer.

O sol está bem forte;
Bate na lomba, na testa;
Não desanimo não apesar:
De a seca castigar.

Já no fim da tarde;
Fodido, cansado e sedento;
Mais uma vez passo no bar;
Pra brindar ao meu amor.

Chegando ao barraco;
Sussurros suspeitos me assolam;
Vejo as roupas de rosinha no chão; e Tião no meu colchão.

Doeu no peito.
Parou meu coração.
Posso até ser tudo;
Mas corno, eu não aceito não.

Facão em minha mão;
Foi tudo sem pensar;
Mandei para o céu a Rosinha;
E para o inferno o Tião.

Faz horas o desespero sopra, com o vento de outrora;
E o sol já não demora, de novo no sertão nascer.
Você que me julga talvez possa pensar;
Que cabra mau sem alma;
Não tem direito nem de viver.

Mas digo de verdade que entre mim e você;
Não há muita diferença;
A não ser o grande fardo que é viver.

Agora lavo meus pecados;
Nasci todo torto e errado;
Vejo parado a rural;
vou simbora pra capital.

Olhei para o céu e conversei com Deus.
Fez de mim lascado;
Não deu certo você sabe.
Ele me respondeu:
“ Te dei liberdade pra ter coragem; de ser humano de verdade”

Já faz tempo, dias e meses que estou na estrada;
Muitas cidades ensolaradas, de monte, planície e mar.
Para esquecer o triste passado;
Só posso viajar, me juntei aos campesinos e lutei com os sem-terra.

Agora depois de velho só quero sossego;
Depois de anos na estrada, conheci o Brasil inteiro.
Agora digo: meu sonho é encontrar;
Um cantinho tranquilo e simples; onde eu possa recomeçar.

E de repente eu desço do busão;
Te encontro na rodô comendo um pastel de feira;
Andei na contramão.
Cansei de viajar, mas dessa vez;
Arrumei um ponto bom.
SEMENTE


Nessa noite de lua cheia; 
Quero voar os muros,
Telhados e terrenos abandonados.

Sei que no seu jardim há flores perfumadas.
Talvez faça de suas folhas uma breve poesia com prova;
Antes que Caiam no chão em desgraça. Sublimem as pétalas o outono;
Adubando a terra com nosso amor de primavera.

Quero ouvir essa noite de lua cheia, 
Os bichos noturnos; e sentir medo pelo desconhecido.
E nesse espaço que separa meu passado árido do seu jardim florido;
Entrego-te meu coração bandido; e de baixo dessa goiabeira cavo meu túmulo.

Esperarei paciente toda a primavera logo aqui; embaixo de tua raiz.  
Talvez por uma aparição; um relâmpago que me ressuscite.
Um louva-adeus que em mim acredite que eu possa te fazer feliz.

E quando vier o inverno chovendo ventos frios,
A goiabeira tiver sem folhas, 
Os homens hibernando em suas casas aquecidas.

Estarei aqui para te proteger dos tempos rigorosos; 
crescendo como uma erva do tempo.

Brotando do chão, bem devagar. Te devorando em toda noite de luar. 

domingo, 15 de abril de 2012

DESPERTADOR


Sempre achei o despertador um objeto fúnebre.
Não por culpa do coitado, mas porque ele me lembra todos os dias que o tempo...
O tempo...é uma das invenções mais “filhas da puta” da humanidade.

Odeio essa mania de contar o tempo, mesmo sabendo que ele é ideologia.
E não há salvação ou fuga contra ele, é a mais certa das servidões.
Queria corta-lo e até mesmo, mata-lo – coisa que já faço demasiadamente.

Mas o tempo sendo meu inimigo não declarado, o aceito até certo ponto envergonhado;
Por torra-lo nessas linhas, milésimas rotações terrestres em volta do sol e em volta dela mesma.

E se ele fosse alguém, gostaria que fosse gentil comigo. Não me estuprasse com cabelos brancos e rugas.

Ou ao menos pedisse permissão e me levasse de vez dessa escravidão.

quarta-feira, 11 de abril de 2012


O HOMEM BOM

Ei! Você senhor...
Podemos sentar nesse banco? Por favor! Imploro!...
Quero te contar um segredo. Não tenhas medo.
Acabei de matar um moço ali na rua de trás. Por favor!! não corra.
Não precisa tremer de medo. Sou um bom cidadão, pago meus impostos, amo minha esposa e meus filhos.
Vou a igreja todos os domingos, rezo sempre antes das refeições, cuido bem dos meus vizinhos e da minha família.
Considero-me um bom patriota. Meu filho mais velho está servindo no Iraque, o do meio está no Afeganistão e o mais novo ....

Pois bem senhor, vou explicar-lhe.
Esse moço que acabo de estrangular com essas mãos, era um desviante!
Não ia a igreja. Era um pagão.
Tinha marcas no corpo horrorosas, tatuagens que nenhum homem de bem teria feito.
Não respeitava pai, mãe. A família tinha vergonha dele.
Andava com gente estranha, de cabelo verde e metais pregados no corpo....

Semana passada ele teve a coragem de me falar que os EUA leva terror ao resto do mundo e não a democracia...veja...

A três dias, falou-me que era a favor do aborto.
Ontem , falou-me que se deita com homens!! Com homens moço!!
Hoje ele saiu de casa com uma mala! Disse-me que iria morar com esse amigo!
Não tive outra opção a não ser mata-lo.
Matar o meu próprio filho. Com essas mãos...Está tudo acabado...E tudo vai voltar ao normal...
Como tudo deve ser.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

A LUZ E O VAGA-LUME

Perdi dentro de mim onde de eu era vaga-lume,
E a luz que ecoou de mim viajava a 299792458 m/s. 

Viajei no tempo, no espaço, em ondas telecinéticas,
Conheci galáxias inteiras. 

Vi a face envelhecida de Deus, 
Vi Gênesis com flores na boca e o coração cheio de vácuo.

Um vácuo interminável sem sentido racional, 
Ela piscou rapidamente com seus grandes olhos e eu voei dando sete voltas e meia em volta da terra. 

Vi toda a sua vida pela janela, 
Ela tem pouco futuro, 
Um sorriso lindo.

sexta-feira, 6 de abril de 2012


O ARGONAUTA SOU EU

Argonauta de mundo, me espere no fim, me deixe navegar em prantos seus...
Argonauta da vida, nâo quero ser vitima, me espere crescer, não busque meu fim...
Homem certeiro, dispare em meu ser:

O inferno e o céu.
Álgebra e poesia.
Frio e calor.
Arte e capital.
Fossa e o monte.
Coração de um gigante.

Pois...

Sem destino quero vagar em meu barco de madeira.
Da arvore secular, da tribo milenar.
Do seu seio quero beber a água do rio,
O néctar da fruta,
O álcool da semente,
Dançar meus deuses, usufruir do espírito, libertar do meu ser a pureza do nativo.

Senhor que não creio...
Dê-me liberdade, me deixe à vontade com minha subjetividade.
Me deixe ser antes que tudo acabe, Argonauta de mim. 

O CACHORRO

O bêbado feliz brinda o novo ano.
Ano de fartura, de alegria, prazer de viver.
Muita pinga e pouca tristeza.

Lembranças da família.
Do nascer,  da pura esperança.

E vagando ludibriado no mundo dos sonhos, do céu estrelado, se consome em alegria.
Lança uma lasca de frango para faísca, pega sua carroça de papelão e sai cantando uma velha canção. 

NATIVO SUBJETIVO

Onde o sol se esconde, onde a vista não alcança, chegaram homens com maquinas, matando meu povo pelo ar.
Roubaram minha história, inventaram a dignidade.
Venderão a minha terra, derrubarão a floresta, transformarão em pasto, o que não tem preço no mercado.
Perdi minha nação, meu povo me perdeu, o mundo me ganhou.


Cheguei na terra do poeta, do imaginário verdadeiro,  da loucura imortal, vida simbólica, pura e simples.
Homem de carne e osso, em satisfação com o nada, existência aglomerada em dores, vida que só é vida, porque não é para sempre.
Em busca do sempre suga do tempo, o corpo reclama a alma pede mais.
Vícios carnais, prazeres sobrenaturais.

O poeta morreu. De cansaço, câncer linfático.
O câncer virou poesia, a morte ficou mais bela.
Depois entendi...
Os homens das maquinas, são o câncer da minha vida.
Meu povo, minha terra, seria o humano poeta.

eu...
Sou a morte que ficou mais bela.

POEMA DE REPOUSO

Além de helicópteros, há algo mais cortando os ares.

Faceira libélula.
A mesma paisagem escuta o carro, e assiste a morte das pombas na lixeira.

Enquanto Broca no bambu, deixa furos de flauta.
O vento faz música.

Soprando dentro e fora de mim, algo que não sou.

ANNA E O VENTO

Surgiu no mundo, some na sombra, na noite.
Anna com olho de gata e tudo mais!
Derruba o vazo de flor.
Casa-grande abandonada, sem telha, nem porta.
Cai riscando um leve traço dourado no azul.

Uma flor de ipê - era gata.
Depois vai sem saltos,
Dona Anna apressada,
Correndo aos saldos.

Pé no chão.
Sem medo.
Sem postura.
Menina danada!
E quem não ama Anna? 
COTIDIANO

Vejo-me sem querer em processos falidos,
Não há objetivos, metas, programas.

Existem apenas atividades corriqueiras sem rima ou métrica.

Identifico velhos padrões,
Defino prioridades antigas,
Elaboro aspectos bizarros,
Requisitos legais da automação cotidiana.

De fato não há mais coração, sentimentos.
Apenas arquivos empoeirados, gastos.

Meu pulmão liberta-se do último ácaro dessa sala de merda, sem janelas.

Liberto-me da gravata sufocante,
Do ar condicionado congelando meus bagos,
Dos colegas falseados e vitimados,
Do chefe comprimidamente drogado,
Dos vizinhos moralizantes, infelizes.

Do teu corpo.

Lindo e pálido, completamente engessado ao meu lado.